A batalha pelas contas das pequenas e médias empresas não está apenas nas maquininhas — e, no caso da contabilidade, acabou de ficar um pouco mais acirrada. O software de gestão Omiexperience anunciou ter recebido um investimento de 20 milhões de dólares (na cotação atual, cerca de 80 milhões de reais) do Riverwood Capital, fundo americano que já investiu em negócios brasileiros como o aplicativo de mobilidade urbana 99; a empresa de comércio eletrônico VTEX; e a loja virtual de artigos esportivos Netshoes.

Criada pelos empreendedores Rafael Olmos e Marcelo Lombardo em 2013, a Omiexperience aposta em educação, inteligência artificial, facilidade de uso e serviços agregados para se diferenciar da concorrência. A empresa usará o novo capital para melhorar a solução e a captação de novos usuários, representados por escritórios e profissionais de contabilidade.

“O contador repassa informações financeiras ao governo digitalmente, assim como o consumidor final. Mas as empresas continuam anotando receitas e despesas no papel ou no Excel instalado no computador no dono. Resolvendo a lacuna de eficiência da pequena e média empresa brasileira, mudamos o país”, afirma Lombardo. As PMEs nacionais geram 27% do Produto Interno Bruto (PIB) e 52% dos empregos de carteira assinada. O Brasil possui mais de 18 milhões de negócios ativos.

De grandes a pequenas

A Omiexperience surgiu a partir de uma antiga empresa do cofundador Marcelo Lombardo. Fundada em 1991, a NewAge Software fornecia softwares de gestão empresarial para grandes companhias, como Ajinomoto, ArcelorMittal e Nissin. Lombardo percebeu logo a saturação do mercado e como seria difícil ser a primeira opção de seu público-alvo. “Há cerca de 44 mil empresas no país faturando acima de 30 milhões de reais por ano e todas possuem softwares. Você só ganha um cliente quando uma concorrente perde”, explica.

A NewAge foi vendida para a americana de gestão de processos Toutatis Global em outubro de 2013. Lombardo ficou com cinco funcionários e uma ideia: criar um software de gestão para pequenas e médias empresas, chamado Omiexperience. Tais negócios passam por um processo crescente de formalização, como a exigência de CNPJs e notas fiscais. No primeiro semestre do último ano, registrou-se o maior número de abertura formal de novas empresas desde 2010.

Para a Omiexperience, a melhor forma de chegar aos empreendedores é tendo a recomendação dos mais de 500 mil contadores e técnicos de contabilidade registrados no Brasil. Por isso, a startup possui um modelo de franquias com cerca de 130 representantes da marca atualmente. Os profissionais explicam o software aos contadores, que por sua vez o vendem aos empreendedores. A cada contrato fechado, os representantes recebem um repasse de valor não divulgado. A Omiexperience fica com a maior parte da mensalidade paga pelo empreendedor. “O volume de clientes é alto e o tíquete médio é baixo, então a cobrança da mensalidade é trabalhosa. O franqueado não precisa se preocupar com isso”, afirma Lombardo.

A Omiexperience atende geralmente companhias com até 15 milhões de reais de faturamento por ano. Segundo estimativa da startup, nove a cada dez desses negócios não usam software algum.

Um diferencial do sistema de gestão é usar a inteligência artificial para resolver questões comuns dos empreendedores, como saber qual alíquota deverá ser paga em uma nota fisca. O regime de sua empresa, o cliente, a finalidade da nota fiscal e o estado de emissão e de destino podem influenciar nos impostos devidos. De acordo com pesquisas da startup, os profissionais de contabilidade reduzem cerca de 70% de sua carga de trabalho, entre digitalização de documentos e checagem de informações financeiras.

Outro destaque está no próprio uso do sistema. O empreendedor arrasta processos de uma coluna para outra, de forma similar ao aplicativo de organização Trello. Quando o pedido de um consumidor passar de “feito” para “aprovado”, o estoque da empresa é reservado e há a geração de um boleto, por exemplo.

Por fim, a Omiexperience oferece há dois anos e meio o acesso a serviços financeiros dentro do software, como antecipação de recebíveis. Com acesso ao fluxo de caixa dos usuários, a startup afirma que o dinheiro pode chegar até a conta do empreendedor em 30 minutos e com taxas que costumam ir de menos de 1% até 3% ao mês. Quem concede o dinheiro são fintechs parceiras da Omiexperience, que confiam na startup para analisar o perfil de risco do tomador do crédito.

A Omiexperience atende mais de 14,5 mil escritórios contábeis e seus 23 mil pequenos e médios negócios vinculados por meio de planos de cobrança mensal. O Omie Fit é um plano gratuito, que atende microempreendedores e empresas que começam a usar o regime de tributação Simples Nacional (faturamento de até 180 mil reais por ano). O plano pago para empresas nas faixas superiores de faturamento no Simples Nacional custa de 249 reais a 374 reais por mês. A Omiexperience faturou 23,2 milhões de reais no último ano, 40% acima dos ganhos vistos em 2017.

Competição e investimento

Internacionalmente, uma referência para a Omiexperience é o software QuickBooks. Criada em 1987, a gigante afirma atender mais de 45 milhões de usuários e ter uma receita anual de mais de quatro bilhões de dólares. “A Quickbooks é uma inspiração para nós. Mas ela não conseguiu se desenvolver tão bem por aqui quanto nos Estados Unidos e na Europa por conta da complexidade tributária. Nossa experiência é um grande trunfo”, afirma Lombardo.

O cofundador afirma ter mapeado 140 concorrentes que oferecem soluções que se enquadrariam na faixa atendida pelo gratuito Omie Fit. Ele descarta que sua maior competição seja a startup ContaAzul, que também chega às pequenas empresas por meio de contadores e já recebeu 145 milhões de reais em investimentos pela cotação atual. “Nosso primeiro concorrente é o papel. O segundo competidor é o Excel”. A Omiexperience já recebe empresas que faturam acima entre 30 e 40 milhões de reais, o que poderia significar a concorrência com provedoras de software enfrentadas antes pela NewAge, como SAP e TOTVS.

A Omiexperience já havia conquistado um capital semente de 2,5 milhões de reais e um aporte série A de 25 milhões de reais, liderados pelo fundo de investimentos brasileiro Astella. No total, a startup já passou dos 100 milhões de reais em investimentos.

Os novos 20 milhões de dólares serão usados para expandir as ferramentas do software, como análise de dados anonimizados da concorrência e controle de estoque em múltiplas unidades. Outro objetivo é aumentar a oferta de serviços financeiros. Adquirência, câmbio, contas correntes digitais e outras modalidades de crédito estão na lista de possíveis adições. Por fim, um último destino será expansão da busca por novos representantes franqueados.

Fonte: Exame